A decisão da Vale de construir o próximo principal centro de minério
de ferro do mundo fez com que investidores enaltecessem a perspectiva de
maiores lucros e levou políticos a conspirarem para destituir Murilo
Ferreira da presidência.
O presidente da Vale está supervisionando a mudança do foco de
investimento e produção futura da mineradora de Minas Gerais para novas
reservas no Pará, em Canaã dos Carajás. A mudança culminou no projeto
S11D, complexo de US$ 14 bilhões em área onde a qualidade do minério é
maior e os custos serão reduzidos. A empresa também está deixando para
trás uma região onde os investimentos e as oportunidades de empregos
caíram continuamente nos últimos quatro anos, gerando ressentimento.
“O direcionamento da empresa poderia ter sido melhor manejado”, disse
o deputado federal Newton Cardoso Júnior (PMDB-MG), cujo pai foi
governador do estado, em entrevista. “A Vale precisa de um presidente
que foque em questões ambientais e que respeite as prioridades
de investimentos de Minas Gerais e as necessidades de geração de
emprego.”
Uma oposição local desse tipo normalmente gera poucas consequências
para uma empresa privada, mas a Vale é controlada por uma holding que
tem entre seus donos fundos de pensão estatais e o Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). E as mudanças surgem no
momento em que o novo governo enfrenta uma recessão e busca se
distanciar de autoridades e executivos com uma lealdade percebida em
relação ao governo anterior.
Ferreira assumiu o cargo de presidente em 2011 como parte de uma
mudança de gestão realizada pela então presidente Dilma Rousseff. Desde
então, a empresa está em uma espécie de montanha-russa. Ao longo desse
período, as ações da Vale caíram 66 por cento devido à queda dos preços
das commodities em meio à desaceleração da demanda chinesa e à expansão
da oferta. Desde janeiro, contudo, há uma recuperação em andamento.
Depois que o presidente da Vale intensificou os esforços em busca de
cortes de custos e redução de dívida e os preços se estabilizaram, as
ações da empresa deram um salto de mais de 50 por cento, superando
o desempenho das rivais. E, no mês passado, o JPMorgan elevou sua
recomendação para a empresa para o equivalente a compra. Agora, Ferreira
vê uma crescente controvérsia nacional sobre os seus esforços, que
estão ajudando no desempenho do papel da Vale e prejudicando uma região
do país que foi a “galinha dos ovos de ouro” da empresa.
O projeto em Canaã dos Carajás permitirá que a Vale comece a exportar
minério de baixo custo e alta qualidade no início do ano que vem a
partir de sua nova mina S11D, usando logística de última geração
inexistente em Minas Gerais. Isso diminuirá os custos globais de
produção e reduzirá a vantagem das operações australianas de propriedade
da Rio Tinto Group e da BHP Billiton devido à proximidade delas em
relação às siderúrgicas chinesas.
“É preciso estar no limite inferior da curva de custo”, disse Patrik
Kauffmann, que ajuda a gerenciar US$ 11 bilhões em ativos, incluindo
títulos da Vale, na Solitaire Aquila, em Zurique, por telefone. “Isso
garante sua sobrevivência até mesmo em tempos difíceis.”
A perspectiva de exportar minério de ferro de forma mais barata para a
China e de criar milhares de empregos em comunidades pobres no norte do
país nesse processo não convence um grupo de políticos de Minas Gerais
do PMDB, o partido do presidente do Brasil, Michel Temer. Eles estão
trabalhando nos bastidores para tentar substituir Ferreira, de 63 anos,
quando seu contrato terminar, no segundo trimestre do ano que vem, disse
um integrante do governo com conhecimento do assunto, sem identificar
os parlamentares.
Embora as minas de Minas Gerais ainda respondam por mais da metade da
produção global da Vale, os gastos no estado caíram continuamente nos
últimos quatro anos e atualmente representam uma fração
dos investimentos no norte do país.
O presidente Temer não assumiu uma posição pública em relação a
Ferreira e a assessoria de imprensa da Presidência preferiu não comentar
o assunto. A assessoria de imprensa da Vale, no Rio, recusou um pedido
de comentário de Ferreira.
A mudança da Vale para o S11D dá suporte a outras críticas à gestão
da empresa por parte de parlamentares de Minas Gerais. Entre elas está a
resposta supostamente inadequada ao acidente fatal na barragem da joint
venture da Vale com a BHP, no ano passado, disse o integrante do
governo, que não está autorizado a falar publicamente. Também não ajuda o
fato de Ferreira ser visto como um aliado de longa data da presidente
da República destituída.
A animosidade de alguns políticos de Minas Gerais em relação a
Ferreira não é compartilhada por Hildo Rocha (PMDB), deputado federal
pelo Maranhão, no Nordeste, onde a Vale está finalizando uma enorme
ferrovia e uma expansão portuária para atender a nova mina S11D.
“Ele fez um ótimo trabalho”, disse Rocha, em entrevista. “Os
investimentos da Vale no Maranhão têm sido muito importantes,
especialmente com a crise e os preços baixos do minério de ferro.”
Cardoso Júnior disse que, embora entenda que a empresa precisa cuidar
de seus resultados finais, muitas pessoas em Minas Gerais sentem que a
Vale deveria demonstrar mais lealdade. Privatizada em 1997, a Vale
explorou a riqueza mineral do estado para financiar expansões globais e
se transformou em uma das produtoras de commodities mais valiosas do
planeta. Até 2009, a Vale era conhecida como Vale do Rio Doce, em alusão
ao rio que corte o estado.
As discussões para escolha de um novo presidente para a Vale não
foram iniciadas oficialmente, segundo o integrante do governo. Mas se
Temer quisesse pressionar para realizar a mudança solicitada por seus
colegas do PMDB, algumas das peças necessárias para isso podem ter se
encaixado recentemente.
O grupo controlador da empresa inclui a Previ, fundo de pensão
estatal administrado pelo Banco do Brasil. Quem chefia a Previ
tradicionalmente preside também o conselho da Vale. Temer já mudou
a liderança do Banco do Brasil e do BNDES, outro acionista da Vale.
Contudo, para um governo Temer que ressalta sua abertura ao
mercado em comparação com o governo anterior, negociar a mudança do
presidente da Vale não é prioridade no momento. A possível tentativa de
estimular os acionistas a escolher um substituto provavelmente será
deixada para o fim do contrato de Ferreira, disse o integrante do
governo.
Em relação ao Norte do Brasil, o deputado Rocha aprova o trabalho que
Ferreira tem realizado e espera que o Maranhão possa desenvolver sua
própria indústria siderúrgica tirando proveito de toda essa nova
produção de minério de ferro.
“A Vale criou empregos e está gerando receitas para o estado”, disse ele.
(Agência de Noticias)